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Loucura

A última gaveta do meu criado mudo está bagunçada. A penúltima e a antepenúltima também. Meu guarda-roupa está a ponto de nenhum lençol ser encontrado. Minha bancada de estudos é um bom exemplo do caos. A dúvida cruel entre a primeira ou terceira pessoa permeia as dobras mais insignificantes do meu cérebro astuto. Em meio ao buraco negro instalado em minha mente, tudo ainda parece em ordem... Minha cama virou meu santuário.   Ó calor, senhor da vida e da morte, serias tu o difusor das minhas emoções? O suor já é algo que tiras de mim; a maquiagem já não disfarça minhas olheiras, e ainda insistes em dizer que és luz em meus caminhos? Estou cansada. Exausta. Sem paciência para acordar feliz na segunda, em paz na terça, sem esmalte na quarta, e rastejante na quinta. Amanhã será outro longo dia, que, assim como todos os outros, embirra em sempre completar vinte e quatro horas. As quais nunca são suficientemente gentis para se estenderem por mais alguns minutos, a fim de que a ta...

Humanos desumanos

Não está tudo bem. Oferecer o que se tem de melhor para as pessoas não passa de mais um movimento mecânico e insensível. Nada vai além do ato falso de se desejar bom dia. É como respirar: imperceptível, boa parte do tempo.   E nas vezes que as palavras saem conscientemente da boca, não são legítimas: são forçadas, ríspidas. Quando criança escuta-se inúmeras vezes que “costume de casa vai à praça”, e cada ato de bom comportamento é tido como digno de comemoração. Quando se cresce não se lembra que o pedinte de rua tem os mesmo direitos, deveres e valores humanos que qualquer outra pessoa. Primeiramente, se todos são iguais, por que alguns passam fome enquanto outros desperdiçam comida?   Falta equilíbrio. Falta paciência. Falta educação. Não importa se o vocábulo de um bacharel em Direito é grande o suficiente para escrever uma monografia culta quando o mesmo vota num palhaço para deputado. Falta vergonha. O país onde o sol da liberdade brilha em raios fúlgidos re...

Quando tudo o que se quer é não querer

Ouvi dizer que de tudo fica um pouco, não muito. Um pouco de fome, um pouco de saudade, um pouco de raiva, um pouco de sono... Um pouco de vida afinal. Os dias se rastejam rapidamente, e o nosso filtro, de natureza racional, cataloga e engaveta boa parte da rotina em nosso criado-mudo mental. Cautelosamente, as emoções invadem o âmago da razão e mexem em todos os circuitos bem elaborados. Os eletrodos são danificados, e as chaves de cada gaveta é encontrada. Arquivos são revirados, notas são acrescentadas em diversos post it , e então, tudo se torna caos. Tudo. Inclusive os pequenos acontecimentos, que a razão separou na última gaveta, com a identificação "nada importante". O que se têm em mãos, ou melhor, o que se tem em mente, é uma contínua confusão. Uma sensação de que tudo está errado; embora que aquilo que definiu o bom e o ruim tenha sido apenas a metade concreta do seu ser. A abstração, que também permeia seu consciente, está satisfeita com a aparente desordem q...

Amanhã é dia de branco

Levantar cedo, escovar os dentes, tomar banho, comer e correr. Para o Colégio. Chega de velhinhas camaradas e do personal sarado. Voltemos à rotina da escola - casa - escola. Adeus aos dias de pijama na cama lendo um romance. Os livros agora falam do dia da tomada da bastilha e de logaritmos neperianos; ambos desnecessariamente importantes para se conseguir duas ou tres questões a mais na prova da susóa carreira profissional. Se é interessante voltar à civilização estudantil? É o suficiente para dar valor ao último dia de férias, em que, por ação de Deus ou de um reles destino inexistente, sua amiga de infância lhe encontra num restaurante inesperadamente comum para ambas, fazendo com que um simples abraço e sorrisos sinceros sejam confortantes o bastante para aliviar a afliçao de que ela será sua concorrente no próximo ano.  Voltemos ao dia de amanhã, e lembremos da rotina das férias; a qual foi interrompida por uma mísera segunda feira... A mesma que, por consequênc...

Voltando à vida

Despertador toca, chuveiro esquenta, leite esfria. Mais um dia de atraso na ginástica da academia. Elevador sobe, elevador desce; nenhum para no andar E ainda para melhorar, o dono do restaurante lhe chama para conversar Ao som de Miley Cyrus, as velhinhas camaradas Tentam não se concentrar nas dobrinhas saradas Do personal Reclamam do stress e da correria Da calma e da melancolia Reclamam de não amar E também de reclamar Iogurte, aveia, banho; espero não me atrasar para o cinema Mas a vovó mantém o dilema: Plagrel, Energiclin, Prolopa Mais um espetáculo Disney, inebriante Mas uma roda de amigos para conversar O que mais posso esperar? Talvez uma pizza ou um amante Ao final do dia Rezo a Deus que toda a mordomia Seja igual para todos

Flourescent Adolescent

Ela estava acostumada a usar vestidos floridos comuns. Mas em um dia chuvoso, ela teve uma crise de liberdade e fugiu para Nova Iorque, onde o número de pessoas que foram mordidas por outras pessoas é dez vezes maior do que o número de pessoas mordidas por tubarões em todo o mundo. O último namorado dela foi o amor da sua vida por sete anos, desde a primeira série. E mesmo assim ela precisava fugir. E pegou o primeiro voo, gastando metade da poupança. Chegando na cidade dos sonhos, apenas com o jeans recém comprado, uma camisa de quiosque e o All-Star de couro preto surrado, ela parecia apenas mais um clichê de filme americano. Completamente perdida com seu inglês enferrujado, levava no bolso o celular, fones de ouvido e seus documentos. Andou pela rua, e como estava (sempre) com fome, parou no primeiro restaurante que viu. Mas o primeiro restaurante não era um restaurante, propriamente dito... Era uma casa de strippers. Virando a primeira cerveja de sua vida, dançou ao som de A...

Dreads

Acordo atrasada Completamente descabelada Chuva de verão Que parece mais uma monção Daquelas de inundar uma cidade Banho frio Chão gelado Parece que estou lado a lado Com uma inundação De dor de cabeça Frutas, pães, leite com chocolate Esse tempo merece um chá Matte Mas não tenho tempo para escovar um dente E não estou nem um pouco indulgente Com esse tempo nublado A carona não está mais em casa A sobrinha anda meio desgastada Chamo os elevadores pra nada E parece que o dia tende a terminar Molhado Saio do prédio Enfrento o temporal Chego na rua, em frente ao sinal Os carros são lanchas No rio asfaltadamente matinal Chego ao meu destino Com a roupa pingando O cinto caindo A gritos tenho a primeira aula Do começo da semana