segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Ah, falta de ar...

Voltando da universidade para casa, me percebi sem ar. "Deve ter sido aquele café mais cafeinado que me deixou mais ansiosa", pensei. Passei pelo Departamento de Astronomia, ou de algo parecido. Sempre achei que aquele departamento tem cara de astronomia. Fica num terreno elevado, e a pracinha é cheia de pessoas que sempre parecem estar no mundo da lua. Me sinto em casa: sempre gostei do céu.
Ao passar pela portaria, antes de chegar noutro departamento para passar por outro departamento e então conseguir sair da universidade, às 19h15 costumo cruzar com o vigia, ou porteiro, ou recepcionista ou vigia-porteiro-recepcionista do departamento. "Boa noite, filha", ele sempre cumprimenta.
Passando pelo outro departamento antes de chegar no último departamento para então sair da universidade, encontrei duas pessoas que também estavam sem ar. Mas por um motivo diferente do meu. Nem sei se eram duas pessoas, parecia uma só. Não sei quem estava com mais falta de ar, se a menina ou o menino. Segui meu caminho com minha própria falta de ar. Encontrei uma senhora entre o último departamento e a saída da universidade. Ela estava meio escondida, com medo de ser assaltada na maldita parada dessa bendita cidade - que tem 30 santos, mas zero segurança. Ela não estava com falta de ar, apesar de um pouco nervosa com o mato e o escuro.
Ainda que sem muita luz, eu gosto de andar a pé. Apesar da falta de ar. Apesar da falta de segurança. A gente descobre gente que nem a gente, que tem tesão e medo da vida. E a gente descobre que as coisas são assim mesmo, uma mistura de pé na frente e outro atrás, fazendo a gente caminhar e descobrir coisas que a gente sempre viu, mas nunca sentiu.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Baila!

Sobre o aprendizado: aprendi que a gente vai sempre aprendendo. No gerúndio mesmo. Com um verbo de ação mesmo. Com repetição mesmo. A gente vai se fazendo, vai se construindo, vai se quebrando e vai se reconstruindo. A gente toma um sorvete pra passar a dor de dente, e deixa de tomar sorvete por causa da dor de garganta. A gente tenta achar uma fórmula para a vida mas, na verdade, a vida é um tubo de ensaio: tudo é experimentação.
Estou descobrindo histórias de pessoas comuns. Tempinhos atrás eu gostaria de expor essas vidas incríveis numa tela de TV. Ou num programa de rádio. Ou num post na internet. Ou num instories. Hoje eu só quero guardá-las num potinho. Daqueles coloridos e brilhantes que enfeitam prateleiras. Entendi que pessoas que brilham me dão brilho - e eu sempre gostei de uma purpurina. É feliz ser cintilante. Resplandecente como o sol das 9h da manhã.
A madrugada é interessante, de verdade. Mas você já saiu de casa às 8h? É incrível. É luzente. É brilhante. Já saiu de casa às 17h? Aquele brilho fosco e incandescente que, ainda que tímido, brilha o começo da noite. Não gosto de fins: "fim do dia" é tão feio. Ainda bem que estamos sempre num ciclo, num gerúndio, na experimentação. "Está sendo bonito". Acho que isso valoriza a vida: nem antes, nem depois. Agora.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Constante

Às vezes lembro das minhas aulas de matemática do ensino médio. Especificamente aulas de geometria espacial e probabilidade e estatística. Nunca achei que a comunicação tivesse tanta matemática como realmente tem. Nem o amor. 
David tinha abastecido o carro, e estava tentando descobrir quantos litros tinha dado em um litro. Achei que os engenheiros não precisassem de calculadoras: ledo engano. Outro engano também foi achar que engenheiros sabiam trocar torneira... Não aprendem isso na faculdade! 
Nunca gostei dessa raça exata, sabe? Esses seres dotados de capacidades estranhas com números, formas e padrões. Ai que agonia! Mas logo eu, uma aquarela, fui me misturar com essa gente. E descobri que são tragáveis. 
Acho que David é excessão, porque nunca entendi como engenheiros podem ser tão calmos. Deve ser porque ele vive no mundo da Lua, cercado por nuvens e aviões. Gente grande, que sonha alto e mora na rua do Ouro. Uma peça brilhante e valiosa no meio da poeira constante da vida. Peça que nem precisou ser tão garimpada - e eu me surpreendo com isso. 

domingo, 9 de julho de 2017

Carta

Faz tempo que não falo com você. Há alguns dias eu estava em São Paulo, naquela correria que eu sempre estive metida, desde o ensino médio. Essa correria que me acompanha desde os tempos de "boy", como se diz aqui em Natal, entretanto, se intensificou bastante nos últimos meses. Mateus, lembra quando eu chegava na sala de aula de 7h da manhã cantando bom dia para o sol, para as paredes, para as cadeiras e para todo mundo que ainda estava dormindo? Eu não sabia de onde vinha aquela alegria, que mesmo na correria, fazia parte da minha rotina feliz.
Acho que talvez fosse por acordar todos os dias com o café já pronto, mesmo escutando dos meus tios que eu deveria acordar mais cedo pra fazer meu próprio café. Pois é, Mateus, hoje em dia estou acordando bem cedo mesmo. Acho que esqueci de contar: consegui o estágio que tava querendo! Mas estou acordando de 4:30h da manhã - e fazendo meu próprio café. Tô longe de casa, você sabe, e de uns tempos pra cá tudo parece pesar mais. 
Hoje não fui à missa. Mas domingo passado eu estava lá no mosteiro de São Bento, no centro de Sampa, num momento de céu com órgão e canto gregoriano. Você teria adorado! E sabe aquele menino que frequentava a mesma missa aqui perto de casa, e que começamos a namorar? Continuamos juntos. Você ia gostar dele, também. Ia dizer que a gente faz um bom casal. Sabe, Mateus, aquela minha ânsia por respostas permanece. E lembra daquela nossa conversa sobre casais? Às vezes o companheiro não chega com a solução pronta, mesmo. Mas isso é esperado, né? Imagina se ele sempre tivesse as respostas, e num determinado dia, não tivesse. A função do namoro é a companhia, a união e o apoio, como você sempre falou. É algo mais contínuo, equilibrado e sereno. Eu nunca entendi muito bem essa serenidade; hoje estou começando a entender.
Mateus, na maior livraria do país, dentre aquelas prateleiras grandonas e pessoas famintas por literaturas, pedi uma sugestão para voltar a ler. Sim, dei uma parada. Sei que você não acredita que parei de ler, mas por um tempo eu parei. A sugestão que recebi foi algo sobre leveza insustentável. Meio contraditório, né? Meio controverso; que nem as conversas e debates que a gente tinha nas aulas de religião. Controverso mas que até faz sentido, sabe? Faz sentido que na vida é preciso equilíbrio. Sinto falta das aulas de literatura (que eu sei que você odiava, mas também sei que você sabe que preenchia minha alma, e aí ficava feliz). Sinto falta também das vezes que faltava aula pra conversar com o Frei. A gente precisa sempre voltar pra casa né, Mateus? Aqui em Natal chove, aí em Recife também. Mas o frio nem é o mesmo. E amanhã o café não estará pronto na mesa. 

sábado, 3 de junho de 2017

Chuvisco e cheiro de chuva

Sexta-feira. Redação de uma TV. Redação da TV. Sexta-feira na redação da TV, e tentativas de finalizar um texto. Uma tarde de pesquisa. Uma hora de filmagem. Dois minutos de texto. Qual o sinônimo? Não consigo terminar. Essa palavra fica melhor aqui, e é melhor tirar aquele último trecho. Dá pra substituir por outra palavra. É bonito.
Sexta-feira. Redação de uma TV. Como a gente pode usar essa pauta? Coloca pra algo de arquitetura e urbanismo, coloca poesia: a cidade precisa disso. Coloca pra madrugada, que sempre foi a hora mais bonita, - e você tinha se esquecido disso. Coloca pra a hora que a humanidade dorme, e você acorda pra dar conta do recado. Coloca aquela palavra aqui, pra ficar mais bonito.
Não temos personagem: entrevistamos o campo de visão. Dá pra brincar com as palavras, é bonito e preenche a alma. Minha mãe dizia que preenche a alma mas não preenche o bucho. Calma, parece que as coisas sempre se acertam. Parece que sempre fui mais das palavras que do balé, mais das asas e do café. Sempre com rimas. Meus professores diziam pra evitar isso, evitar algumas palavras, voar menos, tomar água. Mas sempre me identifiquei com quem brincava com as letras, os tons, as cores e os sons. Pareciam ter mais sabor de vida.
Nessa mistura sinestésica, comecei a conviver com gente que só voltava pra casa embreagado de energia, vivo pela morte do sol e morto de amores pela vida. Percebi que o mundo joga diversos jogos, e descobri que quem se joga na poesia nunca perde - às vezes morre, mas morre morte de vida eterna, de quem se eterniza através de palavras que não podem ser queimadas, pois já são fogo. E esse fogo a gente carrega inflamado, queimando quem chega junto. É bonito. Às vezes doloroso, mas é bonito.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Quando dói

Às vezes minhas escolhas doem no peito. Às vezes o coração fica do tamanho de uma ervilha, bem engelhada. O peito aperta, o nariz coriza e levanto a cabeça. Tento ficar perto quando estou longe, mas quando estou perto permaneço longe. É muita coisa, eu sei. É culpa minha, eu sei. Culpa dessa minha mania de querer abraçar o mundo com as pernas, os braços e os dedos. Culpa dessa minha mania de colocar uma coisa na cabeça e lutar até o fim por ela.
E dói. Dói aquela dor que faz a gente crescer, ficar mais forte, reconhecer que somos falhos e que nunca podemos estar em três lugares ao mesmo tempo. Fisicamente, podemos em dois - sim, podemos. Mas quando falamos da alma, só podemos estar em um. É por isso que dói: eu não fui feita pra olhar pra o trilho sem admirar a paisagem, sem olhar pra trás e querer ver o detalhe daquela árvore que sumiu com a pressa do trem, sem olhar pra frente buscando o que tem de novo no horizonte.
São tantos livros, são tantas vivências: são experiências únicas e temos que priorizar as coisas. E quando a gente prioriza o que poderia esperar? Dói! É como colocar uma pauta fria no lugar daquela quentíssima e receber a maior bronca do chefe. O ruim é quando somos liberais e somos o subordinado e o próprio chefe. Aí dói. Dói e a gente aprente: porque quem é perturbado só aprende com a dor mesmo... Dói, a gente sofre, a gente se despedaça e se reconstrói. Vê que o caminho estava meio troncho, sem rumo, que era só coisa de gente que mete a cara nos cantos porque gosta de tentar.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Luz e rosa

O direto da minha palavra nunca deveria ter sido cortado do jeito que foi. Floresci e e tiraram meus espinhos antes mesmo de poder furar alguém. O que seria de uma rosa sem seus espinhos? Parece aqueles girassóis sem cheiro. Parece uma manhã sem café. Parece uma pelada jogada com sapatos. Não faz sentido.
Bato na mesa, rodo a cadeira, brigo com o computador e fico quieta. Alongo os dedos, preparo o teclado e um chá de camomila. Só olho pra a tela em silêncio: juramento. Fui até a reitoria, pedi um misto quente, caminhei pelo campus e quase pedi pra ser assaltada. Apostas são melhores que promessas.
Ficou bom, ficou massa. As suas palavras sempre são aconchegantes. Não sei como você se lembra do brinco azul - eu não lembro nem do sapato. Mas não tive dor de cabeça, juro. E cheguei bem. Mas ainda estou tamborilando dedos na mesa. Eu não deveria ter prometido o silêncio, não é natural de mim. Achei inválido essa troca de palavras por não-palavras. É totalmente injusto. Não gostei.

sábado, 8 de abril de 2017

Perdão por estar

A gente pode construir um mundo novo. A gente se envolve numa vibe de Arctic Monkeys junto com Devendra Banhart. Se reclamarem ainda jogamos a Academia no meio. E a gente vai bebendo café e sorrindo, como sempre. Ou como toda a sexta-feira, quando a alma tá animada e desconcertada ao mesmo tempo. E a gente quer aquele calor da segunda-feira de novo.
A gente pode estar cruzando aquela ponte, ou aquele morro, ou aquela via. A gente vai até perto da outra cidade e volta. A gente anda pelos devaneios dos outros e permanece nos nossos, construindo o nosso mundo melhor: azul e amarelo.
A gente vai dançando, correndo, lendo, escutando, escrevendo. A gente vai. Nós estamos. A gente se encontra e fica. A gente se afasta e se encontra, se reencontra e se refaz em cada rabo de olho. Nós viajamos, provamos café com gengibre e voltamos. Nós estamos. Ficamos naquela pedra, naquele mar, naquele olhar. Ficamos até por aqueles livros que não são best-sellers e que ninguém quer. Mas que a gente vai reconstruir, ressignificar e fazer com que o mundo, dessa vez azul e amarelo, leia.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Nunca pare de escrever

Pois é, Gilma. O fim de semana foi quase todo assim: escrevendo. Maldito dia que tivemos essa conexão literária. Nunca foi de professora-aluna. Sempre foi alma-alma. Eu lembro quando passei pra faculdade de Direito, em João Pessoa. As coisas, como sempre, acontecendo fora do seu tempo, pra mim. A euforia fora de hora, a certeza sem a checagem dos fatos e a ansiedade da idade.
Nada deu muito certo no ano seguinte, nem mesmo nossa conversa. Parecia que tudo ia se arrastando num ritmo frenético e os terceiranistas tinham que sobreviver entre as aulas, as aulas e as aulas. Eu ia buscar refúgio na Capela, ou com o Frei Evilásio - que sempre tratava meus dramas como pó de areia: poeira aos olhos de Deus.
No final, as coisas se encaixaram mais ou menos bem. Eu sou forte, né? Vez ou outra a gente para e pensa na vida. Busca nosso refúgio. Procura o equilíbrio. Restaura. Revive. Reacende. Ilumina. A gente brilha e irradia o brilho. Pensamos que somos um algo no meio do nada. E aí a gente escreve.
Escreve pra transbordar a saudade que não cabe no peito, a dor que corrói o estômago e até a felicidade que é maior que o maior sorriso. "A poesia será seu refúgio. Nunca pare de escrever". Nunca.

sábado, 1 de abril de 2017

Complementos

Ela olha pra você como quem se vê num espelho distorcido: não sabe se admira ou se afasta. Ela olha pra você com olhos de quem olha pra o fogo: não sabe se esquenta ou se queima. Queima sempre que perto demais. A distorção da imagem surge com o perto ou o longe. Talvez vocês tenham hipermetropia e astigmatismo. 
Ele olha pra você como um jovem olha pra um jornal impresso: não sabe por onde começar, nem se vai começar. Cultura, para no meio do caminho. Esporte, para no meio do caminho. Economia, para no meio do caminho. Mas ele vê você como um inteiro, apesar da bagunça bem diagramada. 
Vocês são aquela mistura de domingo de manhã com café quente na caneca e três livros espalhados no chão. Vocês são aquela mistura de óculos, palavras e sorrisos bonitos.Vocês são aquele poema de versos livres que ninguém entende, mas que acham interessante. Vocês são aquela mistura de linguagem html com a redação do Tribuna do Norte.
Eu nunca saberei juntar vocês dois. No mundo das ideias, talvez - mas acho que nem isso. Ideologias pra lá, ideologias pra cá. Vocês formariam um bom par num baile de cumbia, mas não sei se durariam mais que três noites, não sei se durariam mais que três livros. Não sei se durariam mais que uma reportagem especial.