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Mostrando postagens de agosto, 2015

#3 Rodrigo e Lúcia Maria

-Vó! Não se levante tão depressa! A senhora pode cair! -Cair o que, menino! Eu nunca caí na vida. -Vó, a senhora caiu duas vezes semana passada, só pela sua pressa. Vá com calma. -Estou calma. -E a senhora anda meio empenada também... -E eu sou mulher de andar empenada?! Me respeite, viu! Vou contar pra sua mãe. -Mas vó, até ela acha que a senhora anda meio empenada. -Que história é essa, menino? -Foi ela quem disse! -Isso é invenção sua. -É mesmo. Mas que a senhora anda meio empenada, anda... -Menino! Pare com isso! Ainda sou muito nova. -A senhora ainda se lembra do seu primeiro marido? -Claro que me lembro! -Noé o nome dele, né vó? Aquele da barca bem grande que tinha vários animais. -Olhe menino, você me respeite! Essa sua geração tá perdida... Meu Jesus amado...

Zona de conforto

Desço vinte andares. Bom dia ao porteiro. Atravesso a rua. Dobro a esquina. Bom dia ao policial. Seu Roberto está todos os dias - exceto às segundas - lendo o jornal numa das mesas de seu restaurante. Bom dia ao senhor Roberto. Atravesso a rua. Bom dia ao lavador de carros, que sempre me esqueço do nome. Atravesso a rua. Bom dia ao dono da banca de revista - chamo-o pelo seu apelido. Dobro a direita. Bom dia ao porteiro do clube. Sigo em linha reta. Bom dia ao salva-vidas, à senhora da biblioteca e ao faxineiro. Bom dia ao porteiro do outro lado do clube. O mesmo trajeto, as mesmas pessoas: todos os dias. Mas ainda não percorri nem metade do meu bairro. Uma dúzia de pessoas que vejo mais vezes por semana do que meus próprios parentes. A estabilidade da paisagem tornou-se quase como um retrato: imutável. As sensações são as mesmas e a constatação disso como algo conhecido é confortante. Não há chance de erro: o roteiro já foi traçado e percorrido várias vezes pela mesma p