Pular para o conteúdo principal

Sobre Ela

Ela está em meio a dois blocos de carnaval. Ruas coloridas, enfeitadas, cheias de vida. A multidão se aglomera em seu entorno, e sua felicidade parece com aquela sentida por crianças ao ganharem brinquedos ao invés de roupas no aniversário. Mas ela tem quase dezesseis anos, e mesmo que desconsidere o ganho de presentes, faz questão de ser lembrada de alguma forma.
Ao final da rua, avista uma bifurcação. Esquerda ou direita? Eis a questão. "Rimas", pensa ela, "foram feitas para embelezar momentos embriagados de mesmices". Os foliões começam a se dividir, e ela se vê angustiada ao ter que escolher entre duas coisas tão parecidas. Mas o sentimento é passageiro, e ela escolhe o caminho por onde o menino mais bonito segue.
Em um insight conteudista e desnecessário, ela imagina a quantidade de pessoas que estão realizando movimentos peristálticos nesse exato momento. E isso a deixa com fome. Ao final da rua, seja por intervenção divina, ou simplesmente sorte, ela se depara com uma pizzaria. "Bendito seja o dono...", ela balbucia. Ao entrar no estabelecimento, não percebe que é refrigerado, mas seu espirro a situa na mudança de temperatura. Para sua surpresa, o local não está tão cheio como esperava, e ela dá graças por isso.
Quatro queijos, borda recheada. Refrigerantes são malfeitores. Suco de laranja é suficientemente saudável. Assim como em livros água-com-açúcar, ela espera, sem esperanças, o menino mais bonito entrar e sentar ao seu lado. E, como previsto, não ocorre. Ao contrário da fantasia brevemente idealizada, um surto de racionalidade a ataca, e ela começa a imaginar o porquê das pessoas reclamarem do mundo se não conseguem ser capazes de fazer algo para mudá-lo.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A intimidade

O belo está na verdades não ditas. E ao mesmo tempos ditas. Ditas sem precisar de forma. Mas precisando de sentimento, de olhar. Um olhar é descarado. Atrevido. Imprudente. Capaz de ser destruído e destrinchado apenas pela intimidade. Eu, apesar de amar as palavras, sou firme em dizer que a intimidade, uma vez construída, transforma um olhar numa poesia inteira. Numa peça de teatro. Num longa metragem. Num livro de Machado de Assis. A intimidade faz o olhar revelar se existiu ou não existiu traição de Capitu. A intimidade faz o olhar revelar o quanto de cigana oblíqua e dissimulada existe nesse mesmo olhar que procura por luzes avermelhadas em lugares escuros. Ou o quão inocente o olhar se revela quando passa pelas pontes iluminadas por luzes amarelas. A intimidade é capaz até mesmo de dizer, sem palavras, que existe inocência em olhares de cigana dissimulada. Porque se a vida é, na verdade, um Carnaval, a cigana é fantasia de criança. Ou fantasia de adulto. Ou realidade. O que...

O amor é um prédio

Cientificamente falando, não sabemos lidar com muitas opções. Não sou eu que digo, é a neurociência. O cardápio que fica à tua disposição é vasto e tu nunca escolhes. A escolha, meus queridos, se tornou privilégio. Descobri isso dia desses. Mentira, foi há uns 5 anos, quase. Mas descobri que a escolha certa tem um impacto grande. É compromisso grande. E quase ninguém tá preparado, ainda. Quase ninguém tá preparado pro privilégio que é o amor. Privilégio cheio de trabalho. Eu sempre achei que o amor fosse uma questão de humanas, mas é muito mais de exatas. Bem, eu entendi que é mais simples viver o amor quando a gente racionaliza ele.  -É o que, pô? -Calma, deixa eu explicar: tudo o que é simples dá trabalho. Já fizesse um slogan? Dá um trabalho do caralho colocar 3 palavras numa frase e o resultado ficar espetacular. É simples, e deu um trabalho danado. -Fazer slogan é complexo e você sabe disso. -Dá trabalho, mas o resultado é simples. Foque no resultado. O fato é que ninguém acei...

Feliz 2014

Por dois dias seguidos vi o mesmo boné. No ônibus e na parada do ônibus. Necessariamente nessa ordem. "Feliz 2014!" estava escrito nas costas do boné. Boné que vestia a cabeça de um velhinho. Velhinho que parecia o carteiro que entregava cartas na rua da minha casa, quando eu ainda morava em Recife. Saudades Recife. Lá eu nunca tive o problema com os ônibus que vão "Via Praça". Ai! Como eu tive ódio desses ônibus nessa semana… Todos os que passavam queriam me levar para o Alecrim. Ai! Como tive ódio do Alecrim. Na verdade, tive mais ódio dos ônibus "Via Praça" que nunca praçavam. Só hoje tive vontade de chorar duas vezes. Não pelos ônibus perdidos e não vindos, nem pelo término do namoro (que continua lindo, firme e forte), nem mesmo pela situação política do país, nem pela gordurinha que começa a se acumular em alguma parte ainda não vista pelos meus olhos, mas vistos pelos olhos dessa consciência hipocondríaca, vaidosa e meio desorientada que insiste...