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Angústia

Estou agonizando. Já não sei pronunciar mais nenhuma palavra. O ar some dos meus pulmões e sou sufocada por verbos não ditos. Minha massa cinzenta está enfeitada com luzes estroboscópicas, e meu coração morreu de falência múltipla de ódios. Quero continuar a viver, mas a emoção se desvaneceu em cálculos matemáticos. Maldita seja a razão, a inspiração e as rimas. E bendito seja aquele que ontem segurou minha mão.
Estou com medo. Medo do nada dar certo, e de escrever mais de um que nesse parágrafo. Estou aprisionada na primeira pessoa do singular. Estou com medo. Medo de não ser suficiente, medo de ser transbordante. Medo de nunca mais escutar as vassourinhas. Mas tento não sofrer. E tenho medo de tentar não sofrer, de terminar e não sentir. Angústia sinto eu ao ter dificuldade em escrever mais uma linha.
Perdoem-me. Perdoem-me pelos meus casos, descasos, repetições e melancolias. A instabilidade adolescente leva a isso: a visão perfeita de um ser imperfeito que nem a si próprio consegue sustentar. Mas o qual é tão idealizado por mentes infantes cheias de Disney e purpurina, que ele, mero mortal, se torna a única via de salvação para o arfante desespero psicológico. Mas pobres ainda são os cheios de si, sistematicamente programados para seguir uma linha de raciocínio, sem andar pelos pântanos da ilusão.
Todos estamos condenados a felicidade. Mas muitos são realistas o bastante para se depararem com uma ordem natural: a desordem da vida. Lutam para não desenvolverem a capacidade de se envolver, tanto consigo, como com outros. Buscam o espaço quarto, sem ao menos terem passado pelo espaço flores, ou até mesmo o espaço conversa. E, nos corredores das convivências, resta apenas a angústia de ter sobrevivido sem viver.

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