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A tal da emoção que se casou com a criatividade

Interessante é saber que muitos dos nossos textos escritos e divulgados e lidos e interpretados se parecem com as mensagens de um telefone sem fio. Sim, aquela brincadeira de criança. As emoções implantadas à força em cada palavra são sentidas de formas diferentes por cada leitor. Desse modo, alguns são tocados, outros dilacerados; mas poucos são os que seguem indiferentes. Vejamos: na frase "estou pronta para me jogar" algum suicida pode achar que é um sinal do universo. Por outro lado, uma menina que acaba de ter sua independência pode pegar seu carro novo, suas amigas, algum dinheiro, a estrada e se divertir com a vida. Assim também pode uma criança se abandonar nos braços de seu pai. Enquanto isso, o pobre escritor estava pensando na primeira gota de chuva que começou a encher os mares do planeta. Alguns sentidos são maiores que outros, porém todos convergem para algum. Isso é importante. Algo tão singelo para muitos é de grande tamanho para poucos, ou o contrário. I...

Os males existem para algum bem

Nada é, inteiramente, ruim: em um mesmo caso dois lados podem ser observados. Muitas vezes, porém, a maldade é mantida como versão exclusiva. Dessa forma, acontecimentos são julgados pelos seus desdobramentos, e não pelas suas causas. Assim, a focalização das tragédias é feita na essência: o drama. Quantas vezes sabe-se de uma enchente que prejudicou o abastecimento elétrico de uma região e o primeiro pensamento foi acerca das perdas decorrentes disso? Ou algo mais devastador: quantas vezes se observa um atentado terrorista e julga-se, instantaneamente, como um ato incomparavelmente absurdo? Todavia, deve existir outro modo de pensar. As empresas especializadas no aluguel de geradores claramente se beneficiaram com a situação; do mesmo modo que fundamentalistas comemoraram por terem defendido o nome e a imagem de seu Profeta. É sabido que nenhum ato mortal é justificável. Com base nisso, pode-se dizer que alguns limites são necessários e a tolerância deve ser fundamental. Dessa fo...

#2 Rodrigo e Lúcia Maria

-Menino! Olha a lua como está bonita! -É verdade vó, está linda! -Não sei como o homem ainda não teve vontade de visitá-la... -Mas ela já foi visitada, vó! -Foi mesmo? -Sim, em mil novecentos e alguma coisa... -Rapaz... Então quer dizer que um homem já pisou na lua? -Dois, na verdade. -E encontraram algo por lá? -Nada de mais... Apenas buracos, crateras e areia. Encontraram coisas mais interessantes em Marte. -Marte, Júpiter, Urano, Netuno e Saturno são o que? -Planetas, vó. -Ah, bem... -Eu vi um vídeo um dia desses que mostrava o tamanho de diversos planetas, desde um planeta bem pequeno até um bem grandão. Dentre eles estava o nosso; ele se mostrava muito pequeno... Como se um grão de farinha fosse a Terra e uma melancia fosse o maior do vídeo. -Nossa! -Pois é... Existem algumas pessoas que dizem que o universo é infinito. -Esquisito? -Não, vó: infinito. -Ah, bem... Então a Terra é muito pequena. -Pois é... Imagina como nós somos pequenos... -I...

#1 Rodrigo e Lúcia Maria

-Vó? A senhora está acordada? -Oi querido! Estou... -Vamos almoçar? Lave suas mão e venha para a cozinha. -Estou indo. "Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap! Clap" - Chineladas ecoam pelo chão do quarto até a cozinha: -Filho, você vem almoçar também? -Vou sim, vó. Estou esquentando a comida. -Certo. O silêncio se estabelece por alguns minutos... -Vó? O almoço está gostoso? -Sim, está tudo muito gostoso. Só quem não está gostosa sou eu. (Risos) -Então coma o restinho. Não deixe nada não, tem gente que não tem o que comer. -Mas filho... Sabe aqueles dias que passamos o dia sem fome nenhuma? -Sei não, vó... Eu tenho fome toda a hora... (Risos) -Coma o restinho para a senhora tomar seus remédios. -Estou comendo. -Mas não coma só a carne não, coma o arroz também, viu? -Mas a carne é mais gostosa que o arroz. -Então a senhora come o arroz primeiro para poder ficar com o gosto mais gostoso por último. Lúcia Maria olha para o neto: -Você está esperto demais. Pront...

Sorrindo com os olhos

Primeiramente peço perdão por ter mentido. Talvez isso tenha desencadeado a perda do brilho nos seus olhos e sua falta de amabilidade. Ainda assim, consigo me lembrar do primeiro sorriso, tão bonito quanto o septuagésimo sexto e mais brilhante que o último. O que aconteceu? Perdemos a intimidade do abraço e o restante se tornou opaco. Pensando bem, a história começa antes... Não importa se minha matéria preferida nunca foi biologia ou se eu definitivamente não acredito no determinismo de "o que for pra ser, será". Estávamos nos desgastando como um grafite numa folha já amassada, e o desenho não estava bonito. Talvez o momento não seja oportuno, mas a verdade é que nunca o será. Vamos deixar isso de lado... Esquecer o que não podemos mais consertar, e seguir em frente. Seguir de braços abertos para um futuro desconhecido. Seguir sem a interferência de paixões nem falsas necessidades. Seguir com sorrisos nos olhos, não mais com o forçado nos lábios.

Pensamento que nem vento

Temos tão pouco tempo que o vento mesmo lento teve medo de passar Temos tão pouco tempo que o café mesmo próximo da chaminé já se deixou esfriar Temos tão pouco tempo que o pesado soneto está mais para um livreto que tem medo de se terminar Temos tão pouco tempo que a caneta perdeu sua cor, com a rapidez da escrita E entre essa e aquela Rita paramos no meio da fita e ela deixou-se enrolar Temos tão pouco tempo que o medo da sorte de um sentimento tão forte termine em morte de amor fraternal Temos tão pouco tempo que o que bastava tornou-se carente e o que nos restava acabou de acabar

Planos, projeções, vértices e o universo

Achei! O que não estava procurando. Sim, achei. Achei um livro feito de papelão cheio de crônicas meio utópicas. Achei, no fundo do meu guarda-roupa, pedaços de alguns sonhos digitados na metade de uma folha de papel. Achei que tinha me esquecido do dia em que escrevi a morte de forma corriqueira. Nostalgia. Esse foi o primeiro livro de gente que nem sabia que sabia escrever... E de outros que realmente não sabiam. Achei a “confissão de uma bomba”, algo sobre o valor dos trabalhadores e outro sobre “a droga da televisão”. Porém, todas pareciam não passar de críticas de banheiro... Aquelas que vêm à mente quando se está no banho, fazem chorar e odiar a sociedade em que se vive. Mas que duram, no máximo, quinze minutos: nada constante, porém recorrente. Depois da poeira das páginas e de muitos espirros, pois a alergia é forte, consegui reviver o dia da escrita. Não era um banheiro, mas havia críticas. Não havia choro, mas se odiava a sociedade. O local era uma sala mais ou menos...