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A culpa é de John Green

Estamos no século XXI. Tudo é aceito, e tudo é rejeitado. Uma batida única 4x4 é apreciada por jovens que deslocam seus cabelos grandes e esticados à 165 centímetros do chão, equilibradas na ponta do pé por saltos de acrílico. A indústria de bebidas alcoólicas recebe tubos de dinheiro vindos da mesada ganha pelos indivíduos cujas camisas são estampadas com jogadores de pólo, jacarés, ou até mesmo com palavras semelhantes àquelas presentes em outdoors. Alguns deles, e me refiro aos indomesticáveis viciados em redes sociais, tiveram sua primeira relação sexual quando estavam bêbados o bastante para se lembrarem a cor do cabelo da vítima alcoolizada. Onde estão os amáveis Shakesperianos, ou os indomáveis poetas de cafeteria que escrevem seus encantos em guardanapos e guardam-os, ou compartilham-os em rodas de amizade? Amor verdadeiro é uma coisa dos livros. “Livros mudam as pessoas, e pessoas mudam o mundo”, mas se as pessoas que mudam o mundo não são mais mudadas pelos livros, em que ...

Quatro olhos

Lá estava ela, sentada com pernas cruzadas sob dois travesseiros e um computador. Sem internet. Lastimante - e ao mesmo tempo saudável - saber que aquele era o único cômodo da casa que o sinal wifi não chegava. Esse era um dos motivos para ela estar vasculhando suas estantes de livros – tanto reais como virtuais, e tentando não se apaixonar por qualquer um que estivesse na sua lista de “Para Ler”; pelo menos até conseguir chegar ao fim dos quatro mundos retangulares e deixados um pouco de lado no seu criado-mudo. Estranho era ela rememorar o estanho dos olhos castanhos do menino de cabelos pretos. Que por um motivo muito claro, a sigla Sb veio à sua mente, e no mesmo instante criou a imagem de um sabão. O que não deveria ser um conjunto muito bom de pensamentos. Mas que poderia ser. Condicional. Tudo é bom se usarmos o “se”, o qual é, geralmente, acompanhado por um verbo. Contudo, mesmo que a ação de verbalizar algo incerto seja satisfatório - ao invés de simplesmente brincar com...

Luzes amarelas e sonhos de uma noite sem estrelas

O barulho dos carros que passam nas ruas se sobrepõe aos pensamentos inquietos da sua adorável escritora. Ainda não temos teletransportes, nem civilização. As buzinas são constantes e as luzes amarelas ao fundo não parecem simples postes de iluminação. Por Deus, será que me drogaram? A noite não se apresenta tão assustadora como parecia tempos atrás. A ideia que o sol brilha em outra parte deste mesmo mundo, agora parece reconfortante. Mesmo que esteja perto da meia-noite, é uma noite sem lua cheia, sem lobisomens. E mesmo que nosso satélite reinasse brilhante no meio do céu, a ideia de que um homem peludo se desse ao trabalho de escolher justo o meu quarto, a mais de sessenta metros do chão, parece improvável. Eu sou irresistível, mas vamos e covenhamos, não é para tanto... Em algum lugar próximo a mim alguns estão dormindo, dançando, fumando, lendo, transando, trabalhando, ou atirando em outras pessoas - o que, de certa forma, não deixa de ser um trabalho; eu acho. Meus vizinhos...

A adolescência é frustrante

É tão certo, mas parece tão errado. Ao mesmo tempo que é dinâmico, também é inerte, sem sabor, sem odor; sem a capacidade de ser o que não é. E o ser é bom.  Efêmero.  Incomparavelmente desnorteante e irritantemente saudável. É a limpidez que existe na lama, é a maciez de uma pedra de granito, é o sólido da água líquida.  É a vivência da morte com dor, e a dor dói, mas é insensível - no sentido mais cru da palavra.  Encontra-se o ápice e não identifica-se seu fim, mas sabe-se o resultado do todo, enquanto se tenta construir uma jornada consideravelmente intensa e leve.

Desconhecido

" Ação retrógrada, Nada me agrada, Caio no abismo levado pela avalanche Que a este enche. Junto com as distrações e enganos Não posso mais confiar em mim, Meus sentidos humanos. Caio fora do planeta, mas nunca serei sol Mato a barata com veneno aerosol Para que? Para que estou escrevendo isso? Liberdade de transcrever sem nenhum compromisso. Nem a ciência sabe tudo Por que eu deveria saber? Sou o fim desta cadeia carbônica Sou um selvagem na era eletrônica Uma imagem que se desvanece Quando perco o controle e você aparece Sua face me sorrindo, ainda estou pedindo Ao fim do que tudo foi um dia Sou eu percebendo meu corpo caindo De tantos tremores que pela madrugada podia Estar sendo o fim do que algo foi há tempos atrás Todos os nossos sentimentos contrários Por todas as nossas precipitações Agora já não é mais tão envolvente Para explicar tudo isso com poucas citações Que se concluem para agir como um solvente De todos estes me...

Egoísmo, individualismo e tecnologia

Ao usar fones de ouvido, portas trancadas e grosserias desnecessárias cria-se um quadro de isolamento. Não pense apenas em adolescentes. Relembre a quantidade de vezes que os vidros dos carros estão fechados, com a desculpa do calor ou da chuva, mesmo em um dia com temperaturas amenas. Até que ponto o individualismo não se torna egoísmo? Vive-se na era da conexão: todos conectados com o mundo. A garçonete australiana sabe a cor preferida do homem ferido por um touro na festa de São Firmino, e o vestibulando de engenharia já sabe todo o mapa astral da morena do segundo ano da faculdade de medicina que é prima do irmão do melhor amigo dele. Mas você mal sabe o nome do seu vizinho, e sua mãe não faz ideia da sua nota alta em álgebra. Seu pai descobriu que você ''está em um relacionamento sério" porque atualizou o Facebook. Qual foi a última vez em que os integrantes de sua família almoçaram juntos? Em toda a história humana, com destaque para o atual período capitalis...

A eternidade do minuto

A cada dia vivido, mais de mil lembranças são rememoradas em nossa mente antes de finalmente dormirmos. Podemos pausá-las, e analisar o valor que cada uma nos apresenta, de acordo com intensidade das emoções que provocam. Não importa se o tempo de caminhada é o mesmo todos os dias, ou se sempre no final do percurso o pôr-do-sol reina às suas costas; cada momento é único. Contudo, mesmo que os muitos minutos que perambulam o seu dia sejam singulares, basta um acontecimento atípico, ou um simples abraço de olhos castanhos para o universo tornar-se um grande vácuo onde o tempo não mais existe. É então que o momento se torna eterno. Eterno não por ser infinito, mas por tornar nossos sentimentos tão fortes ao ponto de termos a capacidade de guardar e reviver cada minuto em nossa mente.