domingo, 9 de julho de 2017

Carta

Faz tempo que não falo com você. Há alguns dias eu estava em São Paulo, naquela correria que eu sempre estive metida, desde o ensino médio. Essa correria que me acompanha desde os tempos de "boy", como se diz aqui em Natal, entretanto, se intensificou bastante nos últimos meses. Mateus, lembra quando eu chegava na sala de aula de 7h da manhã cantando bom dia para o sol, para as paredes, para as cadeiras e para todo mundo que ainda estava dormindo? Eu não sabia de onde vinha aquela alegria, que mesmo na correria, fazia parte da minha rotina feliz.
Acho que talvez fosse por acordar todos os dias com o café já pronto, mesmo escutando dos meus tios que eu deveria acordar mais cedo pra fazer meu próprio café. Pois é, Mateus, hoje em dia estou acordando bem cedo mesmo. Acho que esqueci de contar: consegui o estágio que tava querendo! Mas estou acordando de 4:30h da manhã - e fazendo meu próprio café. Tô longe de casa, você sabe, e de uns tempos pra cá tudo parece pesar mais. 
Hoje não fui à missa. Mas domingo passado eu estava lá no mosteiro de São Bento, no centro de Sampa, num momento de céu com órgão e canto gregoriano. Você teria adorado! E sabe aquele menino que frequentava a mesma missa aqui perto de casa, e que começamos a namorar? Continuamos juntos. Você ia gostar dele, também. Ia dizer que a gente faz um bom casal. Sabe, Mateus, aquela minha ânsia por respostas permanece. E lembra daquela nossa conversa sobre casais? Às vezes o companheiro não chega com a solução pronta, mesmo. Mas isso é esperado, né? Imagina se ele sempre tivesse as respostas, e num determinado dia, não tivesse. A função do namoro é a companhia, a união e o apoio, como você sempre falou. É algo mais contínuo, equilibrado e sereno. Eu nunca entendi muito bem essa serenidade; hoje estou começando a entender.
Mateus, na maior livraria do país, dentre aquelas prateleiras grandonas e pessoas famintas por literaturas, pedi uma sugestão para voltar a ler. Sim, dei uma parada. Sei que você não acredita que parei de ler, mas por um tempo eu parei. A sugestão que recebi foi algo sobre leveza insustentável. Meio contraditório, né? Meio controverso; que nem as conversas e debates que a gente tinha nas aulas de religião. Controverso mas que até faz sentido, sabe? Faz sentido que na vida é preciso equilíbrio. Sinto falta das aulas de literatura (que eu sei que você odiava, mas também sei que você sabe que preenchia minha alma, e aí ficava feliz). Sinto falta também das vezes que faltava aula pra conversar com o Frei. A gente precisa sempre voltar pra casa né, Mateus? Aqui em Natal chove, aí em Recife também. Mas o frio nem é o mesmo. E amanhã o café não estará pronto na mesa. 

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